do Gr. photós + páthos

Posted in sugestões by Paulo S. on 19/11/2017

música
Oba Loba – Lentilhas

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Posted in diálogos, sugestões by Paulo S. on 07/01/2016

– Um músico falhado? Um pintor falhado? Um cineasta falhado? Um bailarino falhado?

– Sim, um escritor.

AMARAL, Rui Manuel, polaróide, Lisboa, Língua Morta, 2015, p. 49.

Posted in sugestões by Paulo S. on 01/06/2015


Tv Rural – um febrão que custa a curar

Posted in sugestões by Paulo S. on 24/05/2015

“antimundo”

Posted in sugestões by Paulo S. on 28/10/2013

[…]

a criança na rua abrindo o caixote do lixo

onde alguém sem saber depositou o assombro de um

balão de hélio ainda cheio

 

que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde

ao pé de casa

 

a criança pasmou, entristeceu depois

mais tarde lembrou-se: tens de escrever um poema sobre o balão

que voou do lixo e não agarrámos

 

um poema é a coisa mais triste que há

e escrevi

 

MIGUEL-MANSO, Tojo, Lisboa, Relógio D’Água, 2013, pp. 18-19.

 

é possível pensar nos leitores e ao mesmo tempo na venda dos livros?

Posted in sugestões by Paulo S. on 03/06/2013

Ou é incompatível? Terá de se pensar mais num que no outro? (há uma tendência visível em que editoras que se preocupam com o leitor não conseguem obter os resultados de venda das grandes editoras (protegidas dentro de grupos editoriais); eu parto do princípio que seja esse também o seu objctivo, o de vender, mas quando existe uma editora como a &etc já não posso afirmar nada. Em todo o caso, não é este o caminho: http://www.orgialiteraria.org/2013/06/novo-livro-de-herberto-helder-o-que.html

Entre o ter e o ler, há distância.

Antero de Quental, o anjo cansado

Posted in sugestões by Paulo S. on 02/12/2012

[…] como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras de cor.

Emanuel Jorge Botelho in cão celeste, nº 2 (2012), p. 6.

Posted in sugestões, vídeo by Paulo S. on 01/09/2012


Songs: Ohia – Back on Top

Posted in sugestões by Paulo S. on 06/08/2012

Nunca foi bom aluno, mas aprendeu a decifrar palavras numa página, o que o ajudou a desembaraçar-se na vida. Na adolescência, viveu com Suzanne, a sua prima mais velha, e a família que ela constituiu depois de casar, após a morte dos seus pais, a tia Helen e o tio Robert.

Abandonou a escola aos onze ou doze anos e, sem família para o importunar, tornou-se um vadio. Um dia, estava ele a pescar no rio Kootenai, a menos de dois quilómetros da vila, quando avistou debaixo de uns vidoeiros um vagabundo em dificuldades, a fazer o curativo numa perna aleijada. “Vem cá, rapaz”, disse o vagabundo, “Por favor — por favor! Tenho os tendões do joelho cortados e preciso de te dizer um coisa.”

O jovem Robert enrolou o fio e pousou a cana de pesca. Depois subiu a ribanceira e parou a três metros do homem, que estava encostado a uma árvore, de pernas estendidas e descalço, com a perna esquerda pousada sobre um maciço de ervas e os sapatos, muito gastos, pousados ao lado. O homem usava barba, estava sujo de terra e tinha a roupa coberta de detritos florestais. “Estás a olhar para um moribundo”, disse o vagabundo.

“Nem te vou pedir que me tragas um gole de água”, disse o homem. “Estou seco como uma bota, mas como vou morrer, não preciso de favores nenhuns.” Robert estava paralisado. Tinha a sensação de estar diante duma boca que se movia como um buraco por entre uma pilha de folhas e trapos e cabelo castanho desgrenhado. “Só quero dizer uma ou duas coisas, para não as levar comigo para a cova.”

“Bom”, disse ele. “Um tipo a quem chamam o Al Orelhas cortou-me a perna por detrás do joelho. E tenho que dizer isto: eu sei que foi ele quem me matou. Essa é a primeira coisa. Diz isso ao xerife, rapaz. Diz-lhe que William Coswell Haley, de St. Louis, Missouri, foi assaltado por um vadio chamado Al Orelhas, que lhe esfaqueou a perna e o matou. Ele fanou-me um rolo de notas, catorze dólares, enquanto eu estava a dormir, e cortou-me os tendões por detrás do joelho para me impedir de ir atrás dele. A minha perna cheira mal”, disse ele, “porque estou aqui há tanto tempo que ela apodreceu. Não preciso de te dizer o resultado. A podridão vai subir-me pelo corpo acima e deixar-me morto até aos olhos. Até eu ser um cadáver capaz de ver ainda as coisas. Capaz de pensar ainda. E ao quarto dia estarei completamente morto. Não sei o que nos acontece depois disso — se continuamos a pensar debaixo de terra, ou se voamos para o céu, ou se somos entregues ao demónio. Mas pelo sim pelo não, ouve o que tenho para te dizer:

“Chamo-mo William Coswell Haley, tenho quarenta e dois anos. Eu era bom homem, tinha emprego e boas perspectivas em St. Louis, Missouri, até há uns quatro anos. Nessa altura a minha sobrinha Susan Haley fez doze anos e, como eu vivia em casa do meu irmão, comecei a ir ter à cama dela à noite. Não conseguia dormir — era assim, o meu coração só deixava de bater como um doido quando eu me levantava do colchão para ir ter à cama dela e ficar ali muito quieto. Bom, ela nunca acordava. Nem sequer quando, uma vez, fiz barulho com os cobertores. Outra vez, toquei-lhe na cara e ela não acordou, agarrei-lhe um pé e ela nada. Noutra noite, puxei-lhe os cobertores para trás e era como se ela estivesse morta. Toquei-lhe, levantei-lhe a camisa, e fiz todas as coisinhas que me apetecia. Todas as coisinhas. E ela nunca acordou.

“E habituei-me a isso. Todas as noites. Todas as coisinhas. Ela nunca acordou.

“Bom, um dia cheguei a casa — eu trabalhava numa fábrica de velas, porque é uma trabalho fácil e às vezes não aparece mais nada. Eram sobretudo mulheres, na fábrica, mas eles aceitavam qualquer pessoa. Quando cheguei a casa, vi a minha cunhada Alice Haley sentada no chão do pátio, na relva escorregadia. Estava a chover, e ela ali caída, a chorar como um bebé.

«”Que se passa, Alice?”

«”O meu marido levantou um pau contra a minha Susan! Levantou um pau contra a minha filha!”

«”Santo Deus! Magoou-a mesmo?”, perguntei eu. “Ou foi só para a assustar?”

«”Se a magoou?”, gritou ela, “Matou-a! A minha pequenina está morta.”»

“Eu nem cheguei a entrar na casa. Deixei para trás tudo o que tinha, fui para a estação, meti-me num vagão e saí daquela terra. Nunca mais voltei. Tenho andado por toda esta região. E também no Canadá. Mas nunca mais lá voltei.

“A pequena Susan tinha um filho no ventre, foi o que a minha cunhada me contou. E o meu irmão bateu com um pau na barriga da miúda, coitada, para lhe tirar a criança do ventre. Bateu-lhe até a matar.”

O moribundo ficou em silêncio durante alguns minutos. Respirava pesadamente e tinha as mãos pousadas na terra, como se quisesse mudar de posição mas não tivesse forças para isso. Parecia não ter ar nos pulmões, arfava e arquejava. “Agora já aceitava um gole de água” Ele fechou os olhos e deixou de se debater para respirar. Quando Robert se aproximou, convencido de que o homem havia morrido, William Haley disse, sem abrir os olhos: “Traz-ma neste sapato velho.”

JOHNSON, Denis, Train Dreams (2011), Sonhos e Comboios, Trad. José Miguel Silva, Lisboa, Relógio D’Água, 2012, pp. 26-28.

Posted in sugestões by Paulo S. on 26/04/2012