do Gr. photós + páthos

Posted in filosofia, livros emprestados by S. Paulo on 19/04/2016

[…] a pessoa que vive no mal radical, por definição, não experimenta remorso, precisamente porque a inversão dos princípios éticos deu lugar a um outro sujeito moral, um outro carácter. A experiência do remorso, ou da culpa subjectiva por acto irreparável, poderá de facto ser uma fresta para uma nova vida, pelo menos na perspectiva de um Kant que nunca deixa “cair” o poder da liberdade individual de escolha. O sujeito que na sua vida ética se conduz sob o princípio ou a regra do mal nunca deixa de facto de acolher nalgum lugar da sua consciência uma regra de bem. A pessoa que, por exemplo, vive sob a regra dominante da mentira e a pratica sistematicamente como violação de um princípio que, no entanto, reconhece como superior (o dever da verdade), poderá eventualmente converter-se se conseguir inverter a hierarquia das regras que comandam a sua conduta. Mas nem sempre isso acontece, já que o mal é precisamente radical, ou seja atinge os próprios fundamentos da vida ética. A caracterização assim feita do mal radical permite, aliás, compreender como ele se encontra muito mais espalhado do que se poderia pensar, não apenas como expressão do monstruoso ou abominável. De facto enquanto fenómeno da vida ética podemos encontrá-lo nas mais diversas regiões da acção humana, mesmo que o efeito da acção não seja do tipo catastrófico. Quantas vezes identificamos esta ou aquela pessoa que na política, nos negócios ou na relação social em geral incorporou ao longo de uma vida a regra da mentira, do engano, da sedução continuada, sem olhar com qualquer réstia de remorso para o interminável desfile das suas vítimas?

MARQUES, António, A Filosofia e o Mal — Banalidade e Radicalidade do Mal de Hannah Arendt a Kant, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2015, pp. 120-121.

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Posted in filosofia, livros emprestados by S. Paulo on 12/04/2016

Por que se luta, então, para conquistar um caminho que se sabe que não é o nosso? Somos nós próprios que traímos a nossa vida. A vida não é isto, não é ganhar dinheiro. Isto é a fase primária. As necessidades físicas pressupõem-se. Gastamos as forças a tentar alcançar o que nos devia ser dado sem pensarmos nisso e que o não é porque os homens se atraiçoaram uns aos outros como inimigos. A vida é outra coisa.

FONSECA, Branquinho da, O Barão (1943), Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1998, p. 39.

Posted in livros emprestados by S. Paulo on 13/03/2016

Nada é um vazio cheio de coisas.

CASTRO, Manuel de, Bonsoir, Madame, Lisboa, Alexandria / Língua Morta, 2013, p. 162.

Posted in filosofia, livros emprestados by S. Paulo on 01/03/2016

A época que tem todos os meios técnicos de alterar absolutamente as condições de vida na Terra é igualmente a época que, através do mesmo desenvolvimento técnico e científico separado, dispõe de todos os meios de controlo e de previsão matematicamente indubitável para previamente avaliar com exactidão aonde conduz — e por volta de que data — o crescimento automático das forças produtivas alienadas da sociedade de classes; ou seja, para calcular a rápida degradação das próprias condições da sobrevivência, no sentido mais geral e trivial da palavra.

DEBORD, Guy, La Planète malade (2004), O Planeta Doente, Trad. Júlio Henriques, Lisboa, Livraria Letra Livre, 2014, pp. 75-76.

Posted in livros emprestados by S. Paulo on 11/02/2016

Quando é de Deus que falamos, falamos do mais extremo limite do não ser, falamos da pura irrisão. Falamos do quê, então? Sei lá: de um balão de encher já furado, da bola de trapos com que o gato se recusa a brincar…

CAEIRO, Rui, Deus e Outros Animais, Lisboa, Averno, 2015, p. 23.

Posted in filosofia, livros emprestados by S. Paulo on 03/02/2016

[…] a palavra patético tem uma história muito longa e muito bela que é interessante fazer emergir à superfície, como um arqueólogo faria com uma antiga estátua grega enterrada debaixo de uma fábrica em Atenas. Esta história é, justamente, a da palavra grega pathos, que é tão importante para os grandes autores desta época – Ésquilo, Sófocles, Eurípides – quanto, posteriormente, foi a palavra logos para os grandes filósofos exploradores da «linguagem» ou da «lógica», Platão ou Aristóteles. Numa das suas obras de lógica, intitulada As Categorias, Aristóteles deduziu a palavra pathos do que chamamos a «forma passiva» de um verbo. Aqui está o exemplo que ele deu: «eu corto, eu queimo» ilustra a forma activa ou em acção; «cortam-me, queimam-me» ilustra a forma passiva ou em paixão, quer dizer, em pathos (o exemplo é interessante desde logo, porque se refere ao mesmo tempo a um dor injusta, por exemplo, a tortura, e a uma dor benéfica, como quando um médico faz uma incisão sobre um tumor ou cauteriza uma ferida, queimando-a).

É óbvio que esta distinção, sem dúvida porque aqui é a linguagem que pensa por nós, nos fornece as «categorias», as ferramentas fundamentais, para estabelecer a diferença entre agir e sofrer, fazer uma acção ou sofrer uma paixão. A partir daí compreendemos facilmente que o fenómeno da emoção foi ligado ao pathos, quer dizer, à «paixão» ou à impossibilidade de agir […]

DIDI-HUBERMAN, Georges, Quelle émotion! Quelle émotion? (2013), Que emoção! Que emoção?, Trad. Mariana Pinto dos Santos, Lisboa, KKYM, 2015, pp. 20-21.

Posted in filosofia, livros emprestados by S. Paulo on 27/01/2016

O senhor Keuner conhecia mal o ser humano. Dizia: «Só é necessário conhecer o ser humano quando está em causa a sua exploração. Pensar significa transformar. Quando penso numa pessoa transformo-a e quase acredito que não é como é, e só ficou assim quando comecei a pensar nela.»

BRECHT, Bertolt, Geschichten vom Herrn Keuner (1967), Histórias do Senhor Keuner, Trad. Luís Bruhein, Lisboa, Hiena Editora, 1993, p. 75.

Posted in filosofia, livros emprestados by S. Paulo on 22/01/2016

Há sempre um pobre com medo:
eis a pobreza total.

NUNES, Rui, “O Lobo e a Lepra” in Quarto de Hóspedes, Lisboa, Língua Morta, 2013, p. 42.

Posted in livros emprestados by S. Paulo on 28/10/2015

MAIA, Carlos Bento da, Tratado Completo de Cosinha e de Copa, Lisboa, Editores Guimarães & Cº., 1903, p. 657 e p. 663.

da Goreti

Posted in livros emprestados by S. Paulo on 08/01/2010

Só existe pessoa-acontecimento se existir pessoa-espectador: a privacidade absoluta, verdadeira, a individualidade pura, não são acontecimentos, são não-acontecimentos, isto é, à letra: a individualidade (a de zero espectadores) não acontece. Quase que se poderia afirmar que a existência individual e privada será uma invenção, precisamente, individual. Como provar a existência de momentos puramente íntimos, não testemunhados por ninguém, a não ser pela consciência do próprio? Não podemos provar, só acreditar. Acredito que o outro existe enquanto indivíduo, acredito: crença; não sei: não é um conhecimento. Mas de mim próprio sei: conheço os meus momentos individuais, e apenas posso esperar que os outros acreditem na existência de tal coisa.

M. TAVARES, Gonçalo, Um Homem: Klaus Klump (2003), 2ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 2005, p. 115.