do Gr. photós + páthos

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 04/10/2017

A partir do momento em que nas obras de fancaria, os saldos assumem essencialmente, o sentido de mercadoria “incapaz”, sem valor prático e que a incapacidade e a ausência de valor prático formam igualmente a base de emprego da palavra “estúpido”, quase não é exagero afirmar que estamos inclinados a qualificar tudo o que não nos convém — sobretudo quando pretendemos, além disso, considerá-lo altamente “cultural” — de “mais ou menos estúpido”. E para definir este “mais ou menos”, é significativo que o uso do termo de estupidez seja inseparável de um outro, que engloba as expressões não menos imperfeitas do vulgar e do moralmente chocante; o que faz incidir por uma segunda vez a nossa atenção sobre o destino comum das noções de “estupidez” e de “inconveniência”. Entre os juízos críticos sobre a arte ou sobre a vida completamente brutos e não refinados, encontra-se, com efeito, não apenas a palavra kitsch, fórmula estética de origem intelectual, mas exclamações de tipo moral tais como “indecência!”, “asqueroso!”, “ignóbil!”, “mórbido!”, “escandaloso!”. Pode acontecer ainda que estas exclamações impliquem, mesmo que utilizadas indistintamente, um esforço intelectual e alguns matizes de significado; assim acabamos por lhes substituir, em última análise, a exclamação já quase inarticulada: “é de uma vulgaridade!” que pode substituir todas as outras e partilhar o império do mundo com a sua correspondente: “é uma estupidez!”. Se estas duas fórmulas podem, caso necessário, substituir todas as outras, é evidentemente porque “estúpido” assumiu uma acepção de incapaz em geral, e “vulgar”, a de inconveniente, em geral. Espreitemos os juízos dos seres humanos uns sobre os outros, actualmente: ver-se-á que o auto-retrato da humanidade tal como se constitui clandestinamente a partir de fotografias de grupos recíprocos, é exclusivamente feito de variações sobre estes dois termos desagradáveis.

MUSIL, Robert, Über die Dummheit (1937), Da Estupidez, trad. Manuel Alberto, Lisboa, Relógio D’ Água Editores, 1994, pp. 22-23.

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Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 13/07/2017

O meramente positivo é desprovido de vida. A negatividade é essencial à vitalidade: «Por conseguinte, algo só é vivo quando contém em si a contradição, e o vivo é justamente essa força de conter e sustentar a contradição em si mesmo.» [Hegel]. Assim, a vivacidade distingue-se da vitalidade ou capacidade da mera vida, à qual falta toda a negatividade. O sobrevivente equivale ao não morto, que é demasiado morto para viver e demasiado vivo para morrer.

HAN, Byung-Chul, Agonie des Eros (2012), A Agonia de Eros, Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio D’ Água Editores, 2014, p. 33.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 14/03/2017

Um dos temas mais profundos do livro de Foucault é o que consiste na substituição desta oposição, demasiado grosseira, lei-ilegalidade, por uma correlação, fina, ilegalismos-leis. A lei é sempre uma composição de ilegalismos que ela diferencia formalizando-os. Basta que se considere o direito das sociedades comerciais para ver que as leis não se opõem globalmente à ilegalidade, mas que umas organizam explicitamente o meio de tornear as outras. A lei é uma gestão de ilegalismos, uns que ela permite, torna possíveis ou inventa como privilégio da classe dominante; outros que ela tolera como compensação das classes dominadas, ou mesmo que ela põe ao serviço da classe dominante; outros, enfim, que ela interdita, isola e toma como objecto — mas também como meio — de dominação.

DELEUZE, Gilles, Foucault (1986), Foucault, 2ª edição, Trad. José Carlos Rodrigues, Lisboa, Vega, 1998, pp. 52-53.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 12/02/2017

Tudo o que isto sugere e que os conservadores de hoje não são mesmo conservadores. Apesar de apoiarem incondicionalmente a autorrevolução contínua do capitalismo, querem apenas que este se torne mais eficiente, suplementando-o com algumas instituições tradicionais (a religião, por exemplo) de modo que se reduzam as suas consequências negativas na vida social e se mantenha a coesão social. Actualmente, um verdadeiro conservador e aquele que admite sem reservas os antagonismos e becos sem saída dos capitalismos globais, aquele que recusa o simples progressismo e que está atento à face negativa do progresso. Neste sentido, actualmente, só um radical de esquerda pode ser um verdadeiro conservador.

ZIZEK, Slavoj, Trouble in Paradise (2014), Problemas no Paraíso — o comunismo depois do fim da história, Trad. C. Santos, Lisboa, Bertrand Editora, 2015, p. 34.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 09/01/2017

Não falo da velocidade que se desloca de um ponto a outro, mas da velocidade que não se move, da própria velocidade.

COCTEAU, Jean, Visão Invisível, Trad. Aníbal Fernandes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p.73.

primeiro parágrafo VII

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 06/09/2016

Há sensivelmente dez anos eu tinha sensivelmente menos dez anos do que hoje tenho. Existe muita gente que, por múltiplas razões — quase sempre coerência, quase nunca imobilismo, que sei eu? –, não muda em dez anos. Eu, para já, mudei e mudei muito, até porque num simples decénio pode caber, por exemplo, a Guerra de Tróia, com todas as suas peripécias, ou a frequência do curso de Direito por parte de João de Deus ou de outros não menos ilustres portugueses e, no meu caso pessoal, com a modéstia inerente não só a tudo o que, no fundo, se me refere mas também a um destino obviamente individual, muitos acontecimentos se verificaram. Sempre aceitei as coisas como se me foram apresentando e, para mim, o meu passado está sempre certo, quanto mais não fosse modificá-lo, quando até as próprias coisas que, num dado momento, me acontecem, as aceito com portuguesa paciência, desde que não envolvam, nalguma medida, a minha responsabilidade como homem enquadrado num certo contexto social. [“Explicação que o autor houve por indispensável antepor a esta segunda edição”, Aquele Grande Rio Eufrates, 1972]

BELO, Ruy, Todos os Poemas (2000), 4ª edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 15.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 14/06/2016

Como Hegel já cuidou repetidamente de observar, do simples facto de algo nos ser «familiar» (bekannt) não se interfere automática e asseguradamente que, por essa mesma circunstância, ele nos seja de pronto «conhecido» (erkannt).

[…] vem-me o mal-estar acentuado por não me sentir nem adepto, nem praticante, do «achoquismo» — uma disseminada corrente de pensamento em voga que, por junto, trata de promover o alçamento da momentânea predilecção avulsa (desde que revestida de sofisticados tiques, e sonorizada pelos apropriados toques) a mais do que suficiente (quando não mesmo: superlativo) princípio reitor das opinações interessantes. Embirro com o género — talvez, por, sem me aperceber, eu próprio nele amiúde me estatelar.

BARATA-MOURA, José, “Que é isso do povo? Notas desgarradas para um respondimento difuso” in O que É o Povo? (coord. José Manuel dos Santos), Lisboa, Tinta-da-china, 2010, p. 76.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 19/04/2016

[…] a pessoa que vive no mal radical, por definição, não experimenta remorso, precisamente porque a inversão dos princípios éticos deu lugar a um outro sujeito moral, um outro carácter. A experiência do remorso, ou da culpa subjectiva por acto irreparável, poderá de facto ser uma fresta para uma nova vida, pelo menos na perspectiva de um Kant que nunca deixa “cair” o poder da liberdade individual de escolha. O sujeito que na sua vida ética se conduz sob o princípio ou a regra do mal nunca deixa de facto de acolher nalgum lugar da sua consciência uma regra de bem. A pessoa que, por exemplo, vive sob a regra dominante da mentira e a pratica sistematicamente como violação de um princípio que, no entanto, reconhece como superior (o dever da verdade), poderá eventualmente converter-se se conseguir inverter a hierarquia das regras que comandam a sua conduta. Mas nem sempre isso acontece, já que o mal é precisamente radical, ou seja atinge os próprios fundamentos da vida ética. A caracterização assim feita do mal radical permite, aliás, compreender como ele se encontra muito mais espalhado do que se poderia pensar, não apenas como expressão do monstruoso ou abominável. De facto enquanto fenómeno da vida ética podemos encontrá-lo nas mais diversas regiões da acção humana, mesmo que o efeito da acção não seja do tipo catastrófico. Quantas vezes identificamos esta ou aquela pessoa que na política, nos negócios ou na relação social em geral incorporou ao longo de uma vida a regra da mentira, do engano, da sedução continuada, sem olhar com qualquer réstia de remorso para o interminável desfile das suas vítimas?

MARQUES, António, A Filosofia e o Mal — Banalidade e Radicalidade do Mal de Hannah Arendt a Kant, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2015, pp. 120-121.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 12/04/2016

Por que se luta, então, para conquistar um caminho que se sabe que não é o nosso? Somos nós próprios que traímos a nossa vida. A vida não é isto, não é ganhar dinheiro. Isto é a fase primária. As necessidades físicas pressupõem-se. Gastamos as forças a tentar alcançar o que nos devia ser dado sem pensarmos nisso e que o não é porque os homens se atraiçoaram uns aos outros como inimigos. A vida é outra coisa.

FONSECA, Branquinho da, O Barão (1943), Lisboa, Relógio D’Água Editores, 1998, p. 39.

Posted in livros emprestados by Paulo S. on 13/03/2016

Nada é um vazio cheio de coisas.

CASTRO, Manuel de, Bonsoir, Madame, Lisboa, Alexandria / Língua Morta, 2013, p. 162.