do Gr. photós + páthos

Estudantes, Giorgio Agamben

Posted in filosofia by Paulo S. on 19/05/2017

Aqui é preciso inverter o lugar comum segundo o qual todas as actividades humanas são definidas pela sua utilidade. Por força desse princípio, as coisas evidentemente mais supérfluas estão hoje inscritas num paradigma utilitário, recodificando como necessidades actividades humanas que sempre foram feitas apenas por puro prazer. Deveria ser claro, de facto, que numa sociedade dominada pela utilidade são justamente as coisas inúteis que se tornam um bem a salvaguardar. A essa categoria pertence o estudo. Aliás, a condição estudantil é para muitos a única ocasião para fazer a experiência, hoje cada vez mais rara, de uma vida que se subtrai a fins utilitários. Por isso, a transformação das faculdades de humanidades em escolas profissionais é, para os estudantes, ao mesmo tempo um engano e um massacre: um engano porque não existe nem pode existir uma profissão que corresponda ao estudo (e isso não será certamente a cada vez mais rarefeita e desacreditada didáctica); um massacre porque priva os estudantes daquilo que constituía o sentido mais próprio da sua condição, deixando que, ainda antes de serem capturados pelo mercado de trabalho, vida e pensamento, unidos pelo estudo, se separem irrevogavelmente.

 

fonte: http://www.revistapunkto.com/2017/05/estudantes-giorgio-agamben_17.html

Posted in filosofia by Paulo S. on 12/05/2017

Sei, como todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre alguém que se aventura a descrevê-lo.

CARDOSO PIRES, José, Lavagante, encontro desabitado, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008, p. 59.

Posted in filosofia by Paulo S. on 15/04/2017

Velocidades que chegam à imobilidade.

COCTEAU, Jean, Opium (1930), Ópio, Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Difel, 1984, p. 41.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 14/03/2017

Um dos temas mais profundos do livro de Foucault é o que consiste na substituição desta oposição, demasiado grosseira, lei-ilegalidade, por uma correlação, fina, ilegalismos-leis. A lei é sempre uma composição de ilegalismos que ela diferencia formalizando-os. Basta que se considere o direito das sociedades comerciais para ver que as leis não se opõem globalmente à ilegalidade, mas que umas organizam explicitamente o meio de tornear as outras. A lei é uma gestão de ilegalismos, uns que ela permite, torna possíveis ou inventa como privilégio da classe dominante; outros que ela tolera como compensação das classes dominadas, ou mesmo que ela põe ao serviço da classe dominante; outros, enfim, que ela interdita, isola e toma como objecto — mas também como meio — de dominação.

DELEUZE, Gilles, Foucault (1986), Foucault, 2ª edição, Trad. José Carlos Rodrigues, Lisboa, Vega, 1998, pp. 52-53.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 12/02/2017

Tudo o que isto sugere e que os conservadores de hoje não são mesmo conservadores. Apesar de apoiarem incondicionalmente a autorrevolução contínua do capitalismo, querem apenas que este se torne mais eficiente, suplementando-o com algumas instituições tradicionais (a religião, por exemplo) de modo que se reduzam as suas consequências negativas na vida social e se mantenha a coesão social. Actualmente, um verdadeiro conservador e aquele que admite sem reservas os antagonismos e becos sem saída dos capitalismos globais, aquele que recusa o simples progressismo e que está atento à face negativa do progresso. Neste sentido, actualmente, só um radical de esquerda pode ser um verdadeiro conservador.

ZIZEK, Slavoj, Trouble in Paradise (2014), Problemas no Paraíso — o comunismo depois do fim da história, Trad. C. Santos, Lisboa, Bertrand Editora, 2015, p. 34.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 09/01/2017

Não falo da velocidade que se desloca de um ponto a outro, mas da velocidade que não se move, da própria velocidade.

COCTEAU, Jean, Visão Invisível, Trad. Aníbal Fernandes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p.73.

Posted in filosofia by Paulo S. on 05/12/2016

Kate pensou que ele tinha escrito as suas peças ali. Passara muito tempo encostados à janela, com um cigarro na mão, e tentara compreender qualquer coisa… Era o que fazia na vida, tentar compreender melhor algumas pequenas coisas. Antes de morrer.

PEREIRA, Ana Teresa, As Longas Tardes de Chuva em Nova Orleães, Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2013, pp. 74-75.

Posted in filosofia by Paulo S. on 10/11/2016

O companheiro demorou-se um instante no termo civilizado. A burguesia de 1900 que, em caso de falência, punha luto e deixava crescer as barbas, usava honra como termo-chave, termo sagrado, como termo-tipo. Os folhetins de porta em porta ainda hoje gastam essa palavra por tudo e por nada: a honra dos pobre, a honra do nome, o preço da honra.

Vieram duas guerras, nada menos que duas, e logo à primeira, com a subida à Banca de candongueiros e novos-ricos, o termo foi-se. À segunda guerra, pior. Os candongueiros que estavam defenderam-se à custa de leis e de aparatos de interesse público dos candongueiros que queriam subir. E passaram a usar palavras mais de raposa e menos de lobo: correcto, capaz, prestigioso, termos em que não se empenha tanto a moral do indivíduo. Um sujeito correcto, um cidadão prestigioso, um político capaz. Mas civilizado é mais engenhoso ainda. Justifica tudo e dá grandeza.

CARDOSO PIRES, José, O Anjo Ancorado (1958), 5ª edição, Lisboa, Moraes Editores, 1977, pp. 139-140.

Posted in filosofia by Paulo S. on 03/11/2016

S. Tomás dizia que entre haver dois anjos e um anjo e uma pedra é melhor que haja um anjo e uma pedra. Pelo princípio da bondade da criação, que tem que ver com a diferença.

Maria Filomena Molder em entrevista no Jornal de Letras, Artes e Ideias (#1201), Outubro de 2016, pp. 24-25.

Posted in filosofia by Paulo S. on 04/10/2016

Temos de entrar em nós próprios armados até aos dentes.

VALÉRY, Paul, Monsieur Teste (1926), O Senhor Teste, Trad. Aníbal Fernandes, Lisboa, Relógio D’Água, 1985, p. 101.