do Gr. photós + páthos

Posted in filosofia, fotografia by Paulo S. on 13/09/2017

A fotografia é aqui uma tecnologia de identificação e de evidenciação. É uma encenação da verdade do sujeito da acção criminosa. Através de um corpo exposto, numa tipologização da identidade patológica do sujeito (na possibilidade de isso ser captado numa objectividade pura), pretende-se reforçar o carácter persuasivo do parecer. […] A fotografia serve aqui como reforço persuasivo (não tanto por aquilo que revela, mas por aquilo que diz revelar).

QUINTAIS, Luís, Franz Piechowski ou a analítica do arquivo — ensaio sobre o visível e o invisível na psiquiatria forense, Lisboa, Edições Cotovia, 2006, p. 100.

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Posted in filosofia by Paulo S. on 06/09/2017

A introspecção, que se nos afigura tão arrojada e tão livre, também nos chega a sufocar. É exame, puro exame… Adultera, enfraquece o gosto da notação. Sobrepõe-se ao sentimento e ao facto, basta-os, diminui-os, exclui-os até, explicando-os.

Como valerá a pena escrever e pensar? De que modo dispormos o espírito?

Pensar… de qualquer modo se pensa, inadvertidamente até, mas escrever é utilizar certa e exclusiva forma de pensar. Há sempre muitíssima técnica e estratégia no escrever.

LISBOA, Irene, Solidão (1939), 4ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1992, p. 85.

Posted in filosofia by Paulo S. on 17/08/2017

— É verdade, o tempo nunca sobra e, pior ainda, nunca é suficiente; e a culpa é nossa, porque o devoramos, roemo-lo com o contínuo acontecer dos acontecimentos que acontecem.

PIÑERA, Virgilio, O Grande Baro e outras histórias, Selecção e versões Rui Manuel Amaral, Guimarães, Livraria Snob, 2016, p. 53.

Posted in filosofia by Paulo S. on 03/08/2017

— Não é propriamente que não goste de música — explica ele. — A música de Mozart e de Beethoven encanta-me e arrebata-me. É por isso mesmo que não quero ouvi-la. Dissolve o pensamento.

— Eu não te encanto e arrebato?

— Mas não dissolves o pensamento.

— Se eu te dissolvesse o pensamento, já não me querias?

— Queria-te na mesma, mas estupidamente.

TELMO, António, Contos, Lisboa, Aríon Publicações, 1999, p. 45.

Roger Garaudy

Posted in filosofia, fotografia by Paulo S. on 23/07/2017

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 13/07/2017

O meramente positivo é desprovido de vida. A negatividade é essencial à vitalidade: «Por conseguinte, algo só é vivo quando contém em si a contradição, e o vivo é justamente essa força de conter e sustentar a contradição em si mesmo.» [Hegel]. Assim, a vivacidade distingue-se da vitalidade ou capacidade da mera vida, à qual falta toda a negatividade. O sobrevivente equivale ao não morto, que é demasiado morto para viver e demasiado vivo para morrer.

HAN, Byung-Chul, Agonie des Eros (2012), A Agonia de Eros, Trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio D’ Água Editores, 2014, p. 33.

sonhos VII

Posted in filosofia by Paulo S. on 06/07/2017

Em sonhos, recuperamos aquilo que nunca fizemos.

Christa Wolf em Unter den Linden (p. 14)

Posted in filosofia by Paulo S. on 14/06/2017

[…] perante a profusão de sinais exteriores de felicidade comercial ou capitalista, ficámos inaptos para interpretar outras felicidades, a do silêncio, da inteligência, da simplicidade de vida, da entreajuda, da falta de pressa, do convívio com as crianças e os bichos.

GOMES, Paulo Varela, O Verão de 2012, Lisboa, Tinta-da-china, 2013, p. 34.

Estudantes, Giorgio Agamben

Posted in filosofia by Paulo S. on 19/05/2017

Aqui é preciso inverter o lugar comum segundo o qual todas as actividades humanas são definidas pela sua utilidade. Por força desse princípio, as coisas evidentemente mais supérfluas estão hoje inscritas num paradigma utilitário, recodificando como necessidades actividades humanas que sempre foram feitas apenas por puro prazer. Deveria ser claro, de facto, que numa sociedade dominada pela utilidade são justamente as coisas inúteis que se tornam um bem a salvaguardar. A essa categoria pertence o estudo. Aliás, a condição estudantil é para muitos a única ocasião para fazer a experiência, hoje cada vez mais rara, de uma vida que se subtrai a fins utilitários. Por isso, a transformação das faculdades de humanidades em escolas profissionais é, para os estudantes, ao mesmo tempo um engano e um massacre: um engano porque não existe nem pode existir uma profissão que corresponda ao estudo (e isso não será certamente a cada vez mais rarefeita e desacreditada didáctica); um massacre porque priva os estudantes daquilo que constituía o sentido mais próprio da sua condição, deixando que, ainda antes de serem capturados pelo mercado de trabalho, vida e pensamento, unidos pelo estudo, se separem irrevogavelmente.

 

fonte: http://www.revistapunkto.com/2017/05/estudantes-giorgio-agamben_17.html

Posted in filosofia by Paulo S. on 12/05/2017

Sei, como todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre alguém que se aventura a descrevê-lo.

CARDOSO PIRES, José, Lavagante, encontro desabitado, Lisboa, Edições Nelson de Matos, 2008, p. 59.