do Gr. photós + páthos

Posted in filosofia by Paulo S. on 16/02/2018

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LONGE
(1914)

 

Quisera evocar esta lembrança…
Mas já se esvaiu… como se nada restasse —
porque jaz longe, nos primeiros anos da juventude.

Uma pele como que feita de jasmim…
Essa noite de Agosto — seria Agosto? — essa noite…
Apenas lembro por fim os olhos; eram, creio, azuis…
Ah, sim, azuis! — um perfeito profundo azul.

 

KAVÁFIS, Konstatinos, 145 Poemas, trad. Manuel Resende, Porto, FLOP, 2017, p. 93.

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Posted in filosofia by Paulo S. on 04/02/2018

Se bem que para todos os casos há um saudável remédio: viver. Viver, que é amar o menos possível, dormir o mais possível, esperar o menos possível, fazendo de conta que não se vive.

TARIO, Francisco, Equinoccio (1946), Equinócio, trad. Rui Manuel Amaral, Lisboa, Língua Morta, 2015, p. 26.

Posted in filosofia by Paulo S. on 17/01/2018

Para que penetro no licor das almas, se apenas lhes revolvo as impurezas?

MARMELO E SILVA, José, Sedução (1937), 3ª edição, Lisboa, Estúdios Cor, 1960, p. 80.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 13/12/2017

Na Idade Média não se pensava forçosamente que o centro do mundo fosse um lugar bom. A Terra estava no centro do mundo mas o centro da Terra, para certa tendência religiosa, era o pior lugar do mundo, era lá que estava localizado o Inferno.
A Terra é feita de terra. De terra dos vasos.

LOPES, Adília, Bandolim, Porto, Assírio & Alvim, 2016, pp. 174-175.

Posted in filosofia by Paulo S. on 10/11/2017

Gostaríamos de transformar o coração dos que nos são próximos, fazer-lhes compreender o drama em que vivemos, mas não ousamos, e ficamos sós, com a nossa dor.

BOVE, Emmanuel, Un Célibataire (1932), Um Celibatário, trad. Paula Mascarenhas, Lisboa, Difel — Difusão Editorial, 1989, p. 36.

Posted in filosofia by Paulo S. on 15/10/2017

O desprendimento, o alheamento do sujeito da vida real retiram ao espírito o movimento da vida. Separado, o sujeito não se alimenta já da vida exterior das coisas, não as podendo pensar, sentir, querer através das suas imagens. Estas representam agora um mundo oco e vazio. O sujeito cindiu-se, ele vê-se querer e não quer, sentir e não sente […]

GIL, José, Cansaço, Tédio, Desassossego, Lisboa, Relógio D’ Água Editores, 2013, p. 109.

Posted in filosofia, livros emprestados by Paulo S. on 04/10/2017

A partir do momento em que nas obras de fancaria, os saldos assumem essencialmente, o sentido de mercadoria “incapaz”, sem valor prático e que a incapacidade e a ausência de valor prático formam igualmente a base de emprego da palavra “estúpido”, quase não é exagero afirmar que estamos inclinados a qualificar tudo o que não nos convém — sobretudo quando pretendemos, além disso, considerá-lo altamente “cultural” — de “mais ou menos estúpido”. E para definir este “mais ou menos”, é significativo que o uso do termo de estupidez seja inseparável de um outro, que engloba as expressões não menos imperfeitas do vulgar e do moralmente chocante; o que faz incidir por uma segunda vez a nossa atenção sobre o destino comum das noções de “estupidez” e de “inconveniência”. Entre os juízos críticos sobre a arte ou sobre a vida completamente brutos e não refinados, encontra-se, com efeito, não apenas a palavra kitsch, fórmula estética de origem intelectual, mas exclamações de tipo moral tais como “indecência!”, “asqueroso!”, “ignóbil!”, “mórbido!”, “escandaloso!”. Pode acontecer ainda que estas exclamações impliquem, mesmo que utilizadas indistintamente, um esforço intelectual e alguns matizes de significado; assim acabamos por lhes substituir, em última análise, a exclamação já quase inarticulada: “é de uma vulgaridade!” que pode substituir todas as outras e partilhar o império do mundo com a sua correspondente: “é uma estupidez!”. Se estas duas fórmulas podem, caso necessário, substituir todas as outras, é evidentemente porque “estúpido” assumiu uma acepção de incapaz em geral, e “vulgar”, a de inconveniente, em geral. Espreitemos os juízos dos seres humanos uns sobre os outros, actualmente: ver-se-á que o auto-retrato da humanidade tal como se constitui clandestinamente a partir de fotografias de grupos recíprocos, é exclusivamente feito de variações sobre estes dois termos desagradáveis.

MUSIL, Robert, Über die Dummheit (1937), Da Estupidez, trad. Manuel Alberto, Lisboa, Relógio D’ Água Editores, 1994, pp. 22-23.

José Paulo Paes, Anatomias (1967)

Posted in filosofia by Paulo S. on 26/09/2017

Posted in filosofia, fotografia by Paulo S. on 13/09/2017

A fotografia é aqui uma tecnologia de identificação e de evidenciação. É uma encenação da verdade do sujeito da acção criminosa. Através de um corpo exposto, numa tipologização da identidade patológica do sujeito (na possibilidade de isso ser captado numa objectividade pura), pretende-se reforçar o carácter persuasivo do parecer. […] A fotografia serve aqui como reforço persuasivo (não tanto por aquilo que revela, mas por aquilo que diz revelar).

QUINTAIS, Luís, Franz Piechowski ou a analítica do arquivo — ensaio sobre o visível e o invisível na psiquiatria forense, Lisboa, Edições Cotovia, 2006, p. 100.

Posted in filosofia by Paulo S. on 06/09/2017

A introspecção, que se nos afigura tão arrojada e tão livre, também nos chega a sufocar. É exame, puro exame… Adultera, enfraquece o gosto da notação. Sobrepõe-se ao sentimento e ao facto, basta-os, diminui-os, exclui-os até, explicando-os.

Como valerá a pena escrever e pensar? De que modo dispormos o espírito?

Pensar… de qualquer modo se pensa, inadvertidamente até, mas escrever é utilizar certa e exclusiva forma de pensar. Há sempre muitíssima técnica e estratégia no escrever.

LISBOA, Irene, Solidão (1939), 4ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1992, p. 85.