do Gr. photós + páthos

Posted in filosofia by Paulo S. on 24/06/2015

E às vezes comparo-me em pensamento com aquele Crassus, o orador, do qual se diz que ganhou um amor tão desmedido por uma moreia do seu viveiro, um peixe de olhos vermelhos, insensível e mudo, que toda a cidade falava do caso; e quando um dia, no Senado, Domitius o criticou por ter chorado a morte do peixe, procurando dessa maneira fazê-lo passar por louco, respondeu-lhe Crassus: «Fiz, na morte do meu peixe, o que tu não fizeste aquando da morte da tua primeira nem da tua segunda mulher».

Não sei com que frequência penso nesse Crassus e na sua moreia como numa imagem de mim mesmo vinda do abismo dos séculos. Mas não é por causa da resposta que ele deu a Domitius. A resposta pôs os risos do lado de Crassus de maneira a encerrar o incidente com um dito de espírito. Mas o que me de perto me toca é o facto em si, o facto, que seria o mesmo, se Domitius tivesse chorado todas as suas mulheres com lágrimas de sangue da dor mais sincera. Em frente dele estaria sempre Crassus, com as suas lágrimas pela sua moreia. E esta figura, tanto mais ridícula e desprezível num Senado que discute as mais altas questões e governa o mundo, possui qualquer coisa indefinível que me obriga a pensar nela duma maneira que me parece totalmente insensata logo que tento traduzir o meu pensamento em palavras.

 

HOFMANNSTHAL, Hugo von, Der Brief des Lord Chandos (1902), A carta de Lord Chandos, Trad. Carlos Leite, Lisboa Hiena Editora, 1990, pp. 49-51.

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