do Gr. photós + páthos

Quatro Noites com Anna

Posted in filosofia by Paulo S. on 21/03/2009

ou história de amor (mal-entendida) onde eu sou ele

Leitura do último filme de Skolimowski [1]


1ª relação

Uma acção pode ter vários sentidos, bem sei. Mas quantos sentidos pode adquirir um sentido? Em que região nos movemos enquanto sujeitos da incerteza? – tendo toda a certeza do nosso lado, não dependendo nunca de um só sentido para avançar; jogando com diferentes sentidos (ou meta-sentidos: excluindo os diferentes sentidos gramaticais que um termo pode alcançar, por exemplo).

Quatro Noites com Anna trata de uma história de amor. No entanto cria-se uma resistência a esta definição, fazendo leituras várias que falham o alvo – considerando a personagem de Leon Okrasa um neurótico, e uma típica história voyeurista.

Contrariando a definição sexual de voyeur, Leon não tira partido de Anna durante as suas visitas ao seu quarto, apesar de estar dominado pelo princípio de prazer freudiano [2]. Não se contenta a ver à distância a vida privada de Anna, entra na sua vida mais privada – a vida onírica.

Não é a perda de realidade que está em causa, é sim, a substituição dela mesma, e o que levou Leon a essa substituição. Afirmar que Leon apresenta um caso de neurose [3], é afirmar a intolerância implacável em que estamos (mundo) e que sempre estivemos (medicina).


A personagem de Leon dá-se em duas partes:

  1. amor, fora do real, com Anna.
  2. ódio, não dele mas do real (o outro, o mal); prisão, violação, sem Anna.[4]


2ª relação

Enquanto espectador – minha única, e limitada, função [5] –, que observa o observador, o que sou eu? Que relação esta entre o sujeito (espectador) e o objecto cinematográfico?

Em Quatro Noites com Anna, estabelece-se uma relação em que o objecto visualizado nos devolve o olhar [6], em que eu me torno no objecto (Leon) que me olha. Em que deixo de ser o sujeito, onde deixo de ser o observador daquele que está a observar e passo só a observar. E é a partir desse momento que tomamos parte do quarto, dos barulhos, da respiração, o que fazer e como fazê-lo – sabendo que Anna está ali, deitada, sujeita.

Depois há a noção temporal presente no título do filme e ainda mais presente no caminhar para o quarto dia, em que o espectador, já tornado em outro, sabe o quando.


É uma crítica à sociedade pós-moderna, uma crítica aos críticos das sociedades pós-modernas, onde a diferença (aquele que é diferente) enfrenta o muro. «Mas tendo em conta que mais facilmente encontramos o mal nos outros que em nós próprios, não existe cura para a ilusão» (Joan Rivière, L’amour et la haine).



still



[1] Jerzy Skolimowski, Cztery noce z Anna, 2008. Visionado a 18 de Março de 2009, no salão da S.O.I.R. Joaquim António de Aguiar (Évora).
[2] Sigmund Freud, “Beyond the Pleasure Principle”, Standart Ed. Vol. 18, 1920.
[3] J. Laplanche et J.-B. Pontalis (Dir.), Vocabulaire de la psychanalyse (1967), 5e édition, 2007.
[4] Nicole Jeammet, La Haine Nécessaire, 1989. É possível ver esta analogia no capítulo 4.
[5] Roland Barthes, “En sourtant du cinéma”, in Comunications: Psychanalyse et Cinéma, nº23, 1975.
[6] Slavoj Žižek, “Alfred Hitchcock, or, Is There a Proper Way to Remake a Film?”, in Hitchcock: Centenary Essays, 2008.

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Uma resposta

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  1. subtil said, on 21/03/2009 at 6:09 PM

    txiiii. agora tenho de ver o filme:P


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