Susan Sontag
Os grandes escritores são ou maridos ou amantes. Certos escritores oferecem as sólidas qualidades de um marido: estabilidade, inteligibilidade, generosidade, decência. Noutros escritores apreciam-se os dons de um amante, dons de temperamento mais do que a bondade moral.
Como leitor e como escritor, sou amante. Sem dúvida.
Desvenda a tua sensação. Observa o que tem por dentro. Não a analises em palavras. Procura traduzi-la em imagens irmãs, em sons equivalentes. Quanto mais nítido for, mais o teu estilo se afirma. (Estilo: tudo o que não é técnica.)
BRESSON, Robert, Notes sur le cinématographe (1975), Notas Sobre o Cinematógrafo, Trad. Pedro Mexia, Porto, Porto Editora, 2000, p. 54.
no prefácio da autora
[...] porque o lívre-arbítrio não significa um só arbítrio, mas vários, que se confrontam no mesmo indivíduo.
O’ CONNOR, Flannery, Wise blood (1949), Sangue sábio, Trad. Nuno Batalha, Lisboa, Cavalo de Ferro Editores, 2007.
Desnos
Revejo agora Robert Desnos na época chamada, por aqueles de entre nós que a conheceram, época dos sonos. Desnos «dorme», mas escreve, fala. Isto passa-se à noite, em minha casa, no atelier por cima do cabaret do Céu. Lá fora grita-se: «É entrar, é entrar! Venham ao Gato Preto!». E Desnos continua a ver o que eu não vejo, o que só vejo à medida que ele mo vai mostrando. Para isso, toma frequentemente de empréstimo a personalidade do homem vivo mais raro, mais infixável, mais mistificador, do autor do Cemitério de Uniformes e librés: Marcel Duchamp, que ele nunca viu. O que Duchamp passava por mais inimitável através de alguns misteriosos «jogos de palavras» (Rrose Sélavy) volta a encontrar-se em Desnos em toda a sua pureza e toma de súbito extraordinária amplitude. Quem não o viu assentar o lápis no papel, sem a menor hesitação e com prodigiosa rapidez, aquelas surpreendentes equações poéticas, quem não pôde, como eu, assegurar-se da sua espontaneidade, da ausência de premeditação que as caracterizava, mesmo se for capaz de lhes apreciar a perfeição técnica e avaliar o maravilhoso voo, não pode fazer ideia do que isso então representava, do valor absoluto de oráculo que assumia. Era preciso que um dos assistentes a essas inúmeras sessões se desse ao trabalho de descrevê-las com precisão, de as situar na sua verdadeira atmosfera. Mas ainda não chegou o momento de se poder evocá-las sem paixão. De tantas entrevistas que Desnos, de olhos fechados, me marcou para mais tarde com ele, com outro ou comigo mesmo, não há só uma de que me sinta com coragem de faltar, nenhuma onde não tenha a certeza de encontrar, nos lugares mais insólitos e às horas mais inverosímeis, quem ele me disse.
BRETON, André, Nadja (1964), Trad. Ernesto Sampaio, Lisboa, Editorial Estampa, 1971, pp. 25-27.

«Eu serei a bola»
Jean-Luc Godard:
Quanto tempo é que esta bobina tem?…Bom.
[...]
Estou aqui sentado diante da câmara, mas na realidade estou, na minha cabeça, atrás dela. O meu universo é o imaginário e este é uma viagem de trás para a frente, de lá para cá. E, como o Wim, eu sou um bom viajante.
em “Chambre 666″ (Maio de 1982), A Lógica das Imagens, Wim Wenders.
por a Célia
CAMPOS, Álvaro de, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, Lisboa, Editorial Estampa, 1997.
p. 51: “Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto)”
“Nada: a paisagem, um copo de vinho, um pouco de amor sem amor, e a vaga tristeza de nada compreender e de ter que perder o pouco que nos é dado.”
p.62: “Um homem não é uma cara mas tem que ter uma cara para ser homem.”
por o Nuno
Thomas Bernhard: “Uma pessoa que, por natureza, seja rouca durante toda a vida dificilmente poderá vir a ser um cantor de ópera. É assim em tudo”, p. 28, Em conversa com Thomas Bernhard, Kurt Hofmann.
Pois assim me sinto eu que, por natureza, não li nada durante toda a vida e agora quero ser filósofo. Entenda-se, ler e não viver. Deixar de ser eu para ser outra coisa, talvez. Desejos estranhos estes..
p. 60: “A sorte, creio eu, está tão distribuída como a infelicidade, toca a toda a gente. Sorte é uma coisa relativa. E até mesmo o perneta tem sorte, porque justamente ainda tem uma perna.”
