«Quatro Noites com Anna»
ou história de amor (mal-entendida) onde eu sou ele
Leitura do último filme de Skolimowski [1]
1ª relação
Uma acção pode ter vários sentidos, bem sei. Mas quantos sentidos pode adquirir um sentido? Em que região nos movemos enquanto sujeitos da incerteza? – tendo toda a certeza do nosso lado, não dependendo nunca de um só sentido para avançar; jogando com diferentes sentidos (ou meta-sentidos: excluindo os diferentes sentidos gramaticais que um termo pode alcançar, por exemplo).
Quatro Noites com Anna trata de uma história de amor. No entanto cria-se uma resistência a esta definição, fazendo leituras várias que falham o alvo – considerando a personagem de Leon Okrasa um neurótico, e uma típica história voyeurista.
Contrariando a definição sexual de voyeur, Leon não tira partido de Anna durante as suas visitas ao seu quarto, apesar de estar dominado pelo princípio de prazer freudiano [2]. Não se contenta a ver à distância a vida privada de Anna, entra na sua vida mais privada – a vida onírica.
Não é a perda de realidade que está em causa, é sim, a substituição dela mesma, e o que levou Leon a essa substituição. Afirmar que Leon apresenta um caso de neurose [3], é afirmar a intolerância implacável em que estamos (mundo) e que sempre estivemos (medicina).
A personagem de Leon dá-se em duas partes:
- amor, fora do real, com Anna.
- ódio, não dele mas do real (o outro, o mal); prisão, violação, sem Anna.[4]
2ª relação
Enquanto espectador – minha única, e limitada, função [5] –, que observa o observador, o que sou eu? Que relação esta entre o sujeito (espectador) e o objecto cinematográfico?
Em Quatro Noites com Anna, estabelece-se uma relação em que o objecto visualizado nos devolve o olhar [6], em que eu me torno no objecto (Leon) que me olha. Em que deixo de ser o sujeito, onde deixo de ser o observador daquele que está a observar e passo só a observar. E é a partir desse momento que tomamos parte do quarto, dos barulhos, da respiração, o que fazer e como fazê-lo – sabendo que Anna está ali, deitada, sujeita.
Depois há a noção temporal presente no título do filme e ainda mais presente no caminhar para o quarto dia, em que o espectador, já tornado em outro, sabe o quando.
É uma crítica à sociedade pós-moderna, uma crítica aos críticos das sociedades pós-modernas, onde a diferença (aquele que é diferente) enfrenta o muro. «Mas tendo em conta que mais facilmente encontramos o mal nos outros que em nós próprios, não existe cura para a ilusão» (Joan Rivière, L’amour et la haine).

[1] Jerzy Skolimowski, Cztery noce z Anna, 2008. Visionado a 18 de Março de 2009, no salão da S.O.I.R. Joaquim António de Aguiar (Évora).
[2] Sigmund Freud, “Beyond the Pleasure Principle”, Standart Ed. Vol. 18, 1920.
[3] J. Laplanche et J.-B. Pontalis (Dir.), Vocabulaire de la psychanalyse (1967), 5e édition, 2007.
[4] Nicole Jeammet, La Haine Nécessaire, 1989. É possível ver esta analogia no capítulo 4.
[5] Roland Barthes, “En sourtant du cinéma”, in Comunications: Psychanalyse et Cinéma, nº23, 1975.
[6] Slavoj Žižek, “Alfred Hitchcock, or, Is There a Proper Way to Remake a Film?”, in Hitchcock: Centenary Essays, 2008.
galeria on-line de fotografias
O “pauloserra.net” morreu, passei as fotografias para uma galeria on-line:
fotografias a cores: http://www.flickr.com/photos/pauloserra/3335166361/in/set-72157614924781502/
fotografias a preto e branco: http://www.flickr.com/photos/pauloserra/3335166479/in/set-72157614924888112/
A criação desta galeria foi muito por causa da minha participação no vaiumagasosa-galeria.blogspot.com, a convite do António Torres.
Brief an den Vater
Se no mundo só existíssemos nós dois – uma visão que me era cara –, a pureza do mundo acabaria em ti, e eu, por obra e graça do teu conselho, seria o começo de toda a sujidade.
Franz Kafka, Carta ao Pai (1919)
Participei na Estante – Livros Perdidos (Org.: Fernando Machado Silva / CEPiA), a 25 de Janeiro de 2009 (Domingo) na sede do CEPiA (Évora).
Foi a primeira sessão dos Livros Perdidos e, muito bem dedicada, à leitura da obra (se é que assim lhe podemos chamar) de António Gancho. Preparei a leitura de um excerto d’ As Dioptrias de Elisa, mas tive de ler mais uns poemas (pequenos também), já não me lembro quantos, a pedido do Fernando.
Eis o excerto que li:
contextualização: Filipe (um dos personagens desta novela) pergunta a Elisa, os dois abraçados mesmo antes de começarem a ter relações sexuais, o porquê de ela gostar dele…
Elisa passou-lhe a mão pela cabeça e respondeu – «Só posso estar apaixonada por si, o seu corpo, a sua pele, o seu pénis. Estou apaixonada por si Filipe.»
GANCHO, António, As Dioptrias de Elisa, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996, p.50.

Fernando Machado Silva, eu e Joana Cavaco. Fotografia tirada por João Paulo Camejo.
nota: houve também um tal de “Herberto Hélder” a recitar (por gravação) 3 poemas de Gancho, a ele um obrigado.
sonhos IV
[...] detesto quando acordo e sinto que passei a noite a sonhar. O que me dá a sensação de que passei a noite acordada.
Maria

